Brisa
Os dias passam e parece que a brisa nunca vai chegar. Ao mesmo tempo percebe-se o dia nascendo e morrendo várias vezes, em um ciclo vicioso que nunca acaba. Enquanto me via desesperada há algum tempo atrás, me acomodo e levo a vida com sorrisos, mesmo que à espera da brisa.
O vento passado já foi embora, deixando em meus braços o frio e os pelos eriçados; chaqualhou todo e qualquer vestígio de tecido vascular e nervos ligados à dor. O que mais dói é saber que aquele vento nunca volta, mas o frio e os pelos continuam do mesmo jeito. É péssimo saber que, além dele nunca voltar, passará por outros corpos causando-lhes a mesma sensação - mas não necessariamente indo embora, como foi quando passou por mim.
Por enquanto não há mais vento nem brisa para sacear. A espera de algo incerto só não é pior que a caída brusca de uma certeza, como a flor que não desabrochou na próxima primavera ou a brisa que simplesmente acabou.
O dia segue alaranjado e sombreado; a noite, azul e escura. Ambos passam dinamicamente não deixando vestígios do ponto de interseção explícitos, apenas trocando entre si e dançando como num baile de dança de salão: quando percebemos que o tempo passa exponencialmente e nenhuma brisa chegou.
Sorrisos e possíveis gargalhadas são possíveis maquiagens para um mundo de ventania. Digo que senti a brisa ou que não necessito dela, quando sei que não é verdade.
Sorrisos são interrompidos lembrando que não há o vento; mas volto a sorrir por saber que assim, de alguma forma, será melhor.
Durmo e acordo com o mesmo frio e pelo arrepiado, mas coloco um manto por cima de meu corpo para aliviar a situação. Tenho consciência de que esse mando me isola das possíveis brisas fracas que podem vir a passar por mim; mesmo assim, só o tiro sozinha no banho, aliviando minha pele com a quentura da água.
A harmonia é esse estado de seguida de vida, com ou sem o vento, adaptando-se às possíveis consequências deste. Mas será que harmonia é bom?
2 comentários:
A Harmonia foi convencionada. Cuidado.
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