quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Um sim-não-não-sim

É incrível como a leitura me faz pensar mais sobre mim mesma que sobre a narrativa em si. Me perco em frases, que releio e que estranhamente me parecem familiares - me identifico.
Então, a partir do momento que tomo aquela frase como parte de minha vida, toda a narrativa faz sentido.
Sinto a dor do personagem de novo, porque sei que já a vivi. Em pensamentos paralelos ao livro, levanto questões semelhantes às dos personagens: me assustando.
Alívio. Sim, tirei todo o peso da identificação do meu corpo. Há momentos atrás eu lia frases e me identificava constantemente, então o atordoante "viver" apareceu e não quis sair - por alguns momentos eu soube. Simplesmente soube. Do que, agora já não sei. Soube sobre mim, isso me deixou muito assustada. A saída de emergência foi parar no meio de minha leitura - e como isso foi difícil!
Parei, fechei o livro imediatamente para não acabar inconscientemente continuando a leitura e de súbito levantei à procura do caderno e lápis que poderiam me tirar essa pedra pesada que é o susto de saber. Demorei para encontrar o lápis certo e enfim apontá-lo - eu estava (e ainda estou) com sede de me expressar através das palavras, essas que me fizeram ficar atordoada.
Procurarei apenas reler minhas palavras quando tiver certeza que meu desabafo terminou - meu maior medo agora é perder o fio da meada e acabar não conseguindo mais expressar minha angústia, não resolvendo assim meu problema.
Minha angústia se dá porque em um livro encontrei meu eu, tão a beira da loucura do mistério. Tão invisível.
Descobri que eu sou, para mim, diferente do que sou para o resto do mundo. Aquele personagem do livro disse coisas conhecidas pelo simples e complexo fato de saber que as diria um dia.
Céus, esse livro está me dando medo. Mais que qualquer dia da minha vida, descobri minhas maiores fraquezas: e descobri também que todas elas estão expostas em um livro presente em todas as livrarias do Brasil - e não ouso dizer o o nome do livro, seria me expor, contando verdades que nem eu mesma queria saber sobre mim - sou eu!

Pausa.
Ouço o tic-tac do relógio para me recompor e ter certeza que sou real.

Não sou sincera comigo mesma. Penso que sou coisas que sei que não sou. Digo que não aguento o silêncio do campo - e é verdade - mas não digo que não o aguento por me deixar atordoada e pensativa demais, e saber que na maioria dos momentos de minha vida, pensar me deixa infeliz. Ao contrário do habitual, fujo do silêncio por esse me fazer auto-mutilar. A vida agitada pra mim é, na verdade, uma saída de emergência quando se incendeiam minhas emoções solitárias.
E o tempo? Esse, não existe. Sempre ou aconteceu ou está para acontecer, é uma contagem de algo que não se conta: momentos.
Passado, presente, futuro... Por incrível que pareça sou uma pessoa nostálgica, mas do amanhã. Do ainda não alcançado, do planejado - talvez por isso eu desabe quando as coisas fogem do plano inicial.
A folha que não caiu no outono e a flor que não desabrochou na primavera são meus maiores temores.
Esse medo de tudo dar errado me aperfeiçoou um pensamento defensivo sobre minha vida: "não se empolgue, vai dar errado". E é apenas por esse pensamento que minhas frustrações são mais amenas - por acabar esperando dar errado: é o pessimismo.
Mas isso é apenas interior. Com o mundo e as outras coisas tenho uma visão poética e avançada demais. Vejo um vaso de flores secas com apenas uma flor vermelha-vívida brotando e penso: "é a volta por cima", me deparando com um sorriso de canto de rosto e esperança retratada em meus olhos. Caio no modo barroco de ser, sou uma infeliz-feliz, uma pessimista-otimista, um ser que vive de sonhos e ao mesmo tempo tem medo deles. Um sim-não-não-sim.

Mais uma pausa.

Minha meditação é o desenho e, mais uma vez contrariando os conceitos, meu meditar não é "não pensar", como é o habitual. É exatamente o contrário, deixar a mente fluir por si só por um tempo, questionando e pensando sobre minha vida, sem me preocupar em expressá-la em qualquer coisa que não o próprio pensar - ao contrário da escrita.
Eu já vivo sem pensar, no corre-corre das não-férias. E se eu quiser relaxar sem pensar na minha vida, sem acabar trazendo aquelas angústias de volta, eu ligo o som no máximo e acompanho a música no que dizem "cantar". Em dias mais felizes, danço.
Isso me traz a alegria momentânia de viver, que é o que todos buscam durante a vida toda.
Sobre escrever? Eu ainda não descobri o que me leva a fazer isso, além da angustiante vontade que de súbito tenho.
Tenho a impressão de que é a vontade do criar misturada com a vontade do se libertar e, principalmente, do se expressar.
Taí uma coisa que me tira o peso de forma incrível - escrever.
Sobre o tal livro que revela todo meu eu, esse ficará fechado até o amanhecer, que é quando a vida não parece assim tão vida, por acordarmos de sonhos tão incertos que até eu não sei. Só a partir desse momento, desvendarei quase por completo meus segredos, confundindo ainda mais a mim.

Eu?

3 comentários:

Rods disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fraan disse...

Então,eu vim aqui no seu blog para conhecer outras maneiras de escrever. Depois resolvi fazer um comentario,mas eu simplesmente nao consigo.
Cara,voce escreve bem demaaaaaaaais. Me deixou sem palavras. Parabens,guria :)

http://vocesabequeeunaosouboa.blogspot.com
(meu humilde blog que nao chega aos pes do seu).

Beijo ;*

Anônimo disse...

te amo, mari