Sombra do sol
- Não. É que junto com o frio, foi projetado em meu corpo sentimento de saudade - de algo virgem do toque, de algo virgem do próprio viver. Saudade essa do próprio bem de um pensamento, do calor de um abraço não dado. Desejo ou necessidade vaga de um futuro caloroso e puramente imaginado. Desejo do novo sabor de churros. Imagino toda textura e gosto desse doce sem nunca tê-lo comido - e sem que ele mesmo exista. Quero um futuro que coincida com meus pensamentos de prazer, que consiga transmitir todo um pôr-do-sol em cor alaranjada e confortante, que consiga transmitir a temperatura de abraço materno, assim como o som de pássaros voltando aos seus ninhos, cantando alegres e voando seguros - penso em tudo isso, sem ter vivido, estando apenas à espera de vivê-lo. É simples, é como se nesse frio eu sentisse uma vontade imensa de abraçar e beijar alguém que na realidade só existe em meu pensamento e saber que esse desejo jamais será realizado. Eu quero o real.
- Agora compreendo.
(provavelmente de julho de 2008)
2 comentários:
você me surpreende :)
Lindo texto (como sempre). Com o tempo percebi que há - além da jornalista sensível, curiosa e perspicaz - a poetisa que emerge de quando em vez.
Beijo carinhoso,
Pedro Capeto
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