quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Frio dentro de si

Ele vinha de muito longe. Sua terra era fria e úmida, seus cabelos eram loiros e cacheados, tinha sarnas no rosto e olhar de pôr-de-sol. Não tomava sorvete pois quando era criança sua mãe dizia que sorvete gelava. Ele tinha medo de se sentir frio por dentro. Andava firme e concentrado no chão seco e quente do sertao. Suado e vermelho nem assim parava, todos que passavam se perguntavam: "O que ele faz aqui?"

Ele queria encontrar Ana, que era dali. Amor da sua vida, metade da laranja; para ele, viveriam felizes independente do lugar físico. Passo a passo ia sentindo mais vontade de encontrá-la, enfim.
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Não estava tão concentrado, agora. Estava tudo mais quente, abafado, seco. Não entendia o que havia acontecido, mas continuou andando. Não tinha onde parar, até que avistou uma pedra. Pequena, mas o suficiente para sentar e descansar um pouco. Olhou à sua volta, o calor tomava conta. Sentia-se atordoado, não estava acostumado.
Levantou-se e andou o tempo suficiente para se perguntar se era aquilo mesmo que ele queria. Viu num arbusto uma caixa de sapatos com seu nome na tampa. Surpreso, abriu. Lá tinha uma carta e uma garrafa d'água. Sem cogitar, pegou a carta e leu. Era de Ana, onde declarava que não estava preparada para ir com ele à nova vida e que fora às Ilhas com sua família. No fim se desculpava e dizia que aquela água era para ele, pois estava muito quente e seco, e seria bom bebê-la.
Beijar-lhe-ia, se a caixa de sapatos não existisse e lá estivesse ela esperando-o. Não foi o caso. Resolveu beber logo da água que ela - que não era mais sua metade da laranja - preparara. Rápido, nem analisou aquela água. Bebeu empolgado e sentiu todo quente dentro de si.
"Ana, sua tola!", pensou antes de cair e perceber que aquilo não era apenas uma água extremamente quente.
Caído, lembrou das palavras de sua mãe, e pela primeira vez sentiu vontade de tomar sorvete.
Morreu.


(27 de março de 2008)

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