É incrível como a leitura me faz pensar mais sobre mim mesma que sobre a narrativa em si. Me perco em frases, que releio e que estranhamente me parecem familiares - me identifico.
Então, a partir do momento que tomo aquela frase como parte de minha vida, toda a narrativa faz sentido.
Sinto a dor do personagem de novo, porque sei que já a vivi. Em pensamentos paralelos ao livro, levanto questões semelhantes às dos personagens: me assustando.
Alívio. Sim, tirei todo o peso da identificação do meu corpo. Há momentos atrás eu lia frases e me identificava constantemente, então o atordoante "viver" apareceu e não quis sair - por alguns momentos eu soube. Simplesmente soube. Do que, agora já não sei. Soube sobre mim, isso me deixou muito assustada. A saída de emergência foi parar no meio de minha leitura - e como isso foi difícil!
Parei, fechei o livro imediatamente para não acabar inconscientemente continuando a leitura e de súbito levantei à procura do caderno e lápis que poderiam me tirar essa pedra pesada que é o susto de saber. Demorei para encontrar o lápis certo e enfim apontá-lo - eu estava (e ainda estou) com sede de me expressar através das palavras, essas que me fizeram ficar atordoada.
Procurarei apenas reler minhas palavras quando tiver certeza que meu desabafo terminou - meu maior medo agora é perder o fio da meada e acabar não conseguindo mais expressar minha angústia, não resolvendo assim meu problema.
Minha angústia se dá porque em um livro encontrei meu eu, tão a beira da loucura do mistério. Tão invisível.
Descobri que eu sou, para mim, diferente do que sou para o resto do mundo. Aquele personagem do livro disse coisas conhecidas pelo simples e complexo fato de saber que as diria um dia.
Céus, esse livro está me dando medo. Mais que qualquer dia da minha vida, descobri minhas maiores fraquezas: e descobri também que todas elas estão expostas em um livro presente em todas as livrarias do Brasil - e não ouso dizer o o nome do livro, seria me expor, contando verdades que nem eu mesma queria saber sobre mim - sou eu!
Pausa.
Ouço o tic-tac do relógio para me recompor e ter certeza que sou real.
Não sou sincera comigo mesma. Penso que sou coisas que sei que não sou. Digo que não aguento o silêncio do campo - e é verdade - mas não digo que não o aguento por me deixar atordoada e pensativa demais, e saber que na maioria dos momentos de minha vida, pensar me deixa infeliz. Ao contrário do habitual, fujo do silêncio por esse me fazer auto-mutilar. A vida agitada pra mim é, na verdade, uma saída de emergência quando se incendeiam minhas emoções solitárias.
E o tempo? Esse, não existe. Sempre ou aconteceu ou está para acontecer, é uma contagem de algo que não se conta: momentos.
Passado, presente, futuro... Por incrível que pareça sou uma pessoa nostálgica, mas do amanhã. Do ainda não alcançado, do planejado - talvez por isso eu desabe quando as coisas fogem do plano inicial.
A folha que não caiu no outono e a flor que não desabrochou na primavera são meus maiores temores.
Esse medo de tudo dar errado me aperfeiçoou um pensamento defensivo sobre minha vida: "não se empolgue, vai dar errado". E é apenas por esse pensamento que minhas frustrações são mais amenas - por acabar esperando dar errado: é o pessimismo.
Mas isso é apenas interior. Com o mundo e as outras coisas tenho uma visão poética e avançada demais. Vejo um vaso de flores secas com apenas uma flor vermelha-vívida brotando e penso: "é a volta por cima", me deparando com um sorriso de canto de rosto e esperança retratada em meus olhos. Caio no modo barroco de ser, sou uma infeliz-feliz, uma pessimista-otimista, um ser que vive de sonhos e ao mesmo tempo tem medo deles. Um sim-não-não-sim.
Mais uma pausa.
Minha meditação é o desenho e, mais uma vez contrariando os conceitos, meu meditar não é "não pensar", como é o habitual. É exatamente o contrário, deixar a mente fluir por si só por um tempo, questionando e pensando sobre minha vida, sem me preocupar em expressá-la em qualquer coisa que não o próprio pensar - ao contrário da escrita.
Eu já vivo sem pensar, no corre-corre das não-férias. E se eu quiser relaxar sem pensar na minha vida, sem acabar trazendo aquelas angústias de volta, eu ligo o som no máximo e acompanho a música no que dizem "cantar". Em dias mais felizes, danço.
Isso me traz a alegria momentânia de viver, que é o que todos buscam durante a vida toda.
Sobre escrever? Eu ainda não descobri o que me leva a fazer isso, além da angustiante vontade que de súbito tenho.
Tenho a impressão de que é a vontade do criar misturada com a vontade do se libertar e, principalmente, do se expressar.
Taí uma coisa que me tira o peso de forma incrível - escrever.
Sobre o tal livro que revela todo meu eu, esse ficará fechado até o amanhecer, que é quando a vida não parece assim tão vida, por acordarmos de sonhos tão incertos que até eu não sei. Só a partir desse momento, desvendarei quase por completo meus segredos, confundindo ainda mais a mim.
Eu?