sexta-feira, 19 de junho de 2009

Brisa

Os dias passam e parece que a brisa nunca vai chegar. Ao mesmo tempo percebe-se o dia nascendo e morrendo várias vezes, em um ciclo vicioso que nunca acaba. Enquanto me via desesperada há algum tempo atrás, me acomodo e levo a vida com sorrisos, mesmo que à espera da brisa.

O vento passado já foi embora, deixando em meus braços o frio e os pelos eriçados; chaqualhou todo e qualquer vestígio de tecido vascular e nervos ligados à dor. O que mais dói é saber que aquele vento nunca volta, mas o frio e os pelos continuam do mesmo jeito. É péssimo saber que, além dele nunca voltar, passará por outros corpos causando-lhes a mesma sensação - mas não necessariamente indo embora, como foi quando passou por mim.

Por enquanto não há mais vento nem brisa para sacear. A espera de algo incerto só não é pior que a caída brusca de uma certeza, como a flor que não desabrochou na próxima primavera ou a brisa que simplesmente acabou.

O dia segue alaranjado e sombreado; a noite, azul e escura. Ambos passam dinamicamente não deixando vestígios do ponto de interseção explícitos, apenas trocando entre si e dançando como num baile de dança de salão: quando percebemos que o tempo passa exponencialmente e nenhuma brisa chegou.

Sorrisos e possíveis gargalhadas são possíveis maquiagens para um mundo de ventania. Digo que senti a brisa ou que não necessito dela, quando sei que não é verdade.

Sorrisos são interrompidos lembrando que não há o vento; mas volto a sorrir por saber que assim, de alguma forma, será melhor.

Durmo e acordo com o mesmo frio e pelo arrepiado, mas coloco um manto por cima de meu corpo para aliviar a situação. Tenho consciência de que esse mando me isola das possíveis brisas fracas que podem vir a passar por mim; mesmo assim, só o tiro sozinha no banho, aliviando minha pele com a quentura da água.

A harmonia é esse estado de seguida de vida, com ou sem o vento, adaptando-se às possíveis consequências deste. Mas será que harmonia é bom?

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Um sim-não-não-sim

É incrível como a leitura me faz pensar mais sobre mim mesma que sobre a narrativa em si. Me perco em frases, que releio e que estranhamente me parecem familiares - me identifico.
Então, a partir do momento que tomo aquela frase como parte de minha vida, toda a narrativa faz sentido.
Sinto a dor do personagem de novo, porque sei que já a vivi. Em pensamentos paralelos ao livro, levanto questões semelhantes às dos personagens: me assustando.
Alívio. Sim, tirei todo o peso da identificação do meu corpo. Há momentos atrás eu lia frases e me identificava constantemente, então o atordoante "viver" apareceu e não quis sair - por alguns momentos eu soube. Simplesmente soube. Do que, agora já não sei. Soube sobre mim, isso me deixou muito assustada. A saída de emergência foi parar no meio de minha leitura - e como isso foi difícil!
Parei, fechei o livro imediatamente para não acabar inconscientemente continuando a leitura e de súbito levantei à procura do caderno e lápis que poderiam me tirar essa pedra pesada que é o susto de saber. Demorei para encontrar o lápis certo e enfim apontá-lo - eu estava (e ainda estou) com sede de me expressar através das palavras, essas que me fizeram ficar atordoada.
Procurarei apenas reler minhas palavras quando tiver certeza que meu desabafo terminou - meu maior medo agora é perder o fio da meada e acabar não conseguindo mais expressar minha angústia, não resolvendo assim meu problema.
Minha angústia se dá porque em um livro encontrei meu eu, tão a beira da loucura do mistério. Tão invisível.
Descobri que eu sou, para mim, diferente do que sou para o resto do mundo. Aquele personagem do livro disse coisas conhecidas pelo simples e complexo fato de saber que as diria um dia.
Céus, esse livro está me dando medo. Mais que qualquer dia da minha vida, descobri minhas maiores fraquezas: e descobri também que todas elas estão expostas em um livro presente em todas as livrarias do Brasil - e não ouso dizer o o nome do livro, seria me expor, contando verdades que nem eu mesma queria saber sobre mim - sou eu!

Pausa.
Ouço o tic-tac do relógio para me recompor e ter certeza que sou real.

Não sou sincera comigo mesma. Penso que sou coisas que sei que não sou. Digo que não aguento o silêncio do campo - e é verdade - mas não digo que não o aguento por me deixar atordoada e pensativa demais, e saber que na maioria dos momentos de minha vida, pensar me deixa infeliz. Ao contrário do habitual, fujo do silêncio por esse me fazer auto-mutilar. A vida agitada pra mim é, na verdade, uma saída de emergência quando se incendeiam minhas emoções solitárias.
E o tempo? Esse, não existe. Sempre ou aconteceu ou está para acontecer, é uma contagem de algo que não se conta: momentos.
Passado, presente, futuro... Por incrível que pareça sou uma pessoa nostálgica, mas do amanhã. Do ainda não alcançado, do planejado - talvez por isso eu desabe quando as coisas fogem do plano inicial.
A folha que não caiu no outono e a flor que não desabrochou na primavera são meus maiores temores.
Esse medo de tudo dar errado me aperfeiçoou um pensamento defensivo sobre minha vida: "não se empolgue, vai dar errado". E é apenas por esse pensamento que minhas frustrações são mais amenas - por acabar esperando dar errado: é o pessimismo.
Mas isso é apenas interior. Com o mundo e as outras coisas tenho uma visão poética e avançada demais. Vejo um vaso de flores secas com apenas uma flor vermelha-vívida brotando e penso: "é a volta por cima", me deparando com um sorriso de canto de rosto e esperança retratada em meus olhos. Caio no modo barroco de ser, sou uma infeliz-feliz, uma pessimista-otimista, um ser que vive de sonhos e ao mesmo tempo tem medo deles. Um sim-não-não-sim.

Mais uma pausa.

Minha meditação é o desenho e, mais uma vez contrariando os conceitos, meu meditar não é "não pensar", como é o habitual. É exatamente o contrário, deixar a mente fluir por si só por um tempo, questionando e pensando sobre minha vida, sem me preocupar em expressá-la em qualquer coisa que não o próprio pensar - ao contrário da escrita.
Eu já vivo sem pensar, no corre-corre das não-férias. E se eu quiser relaxar sem pensar na minha vida, sem acabar trazendo aquelas angústias de volta, eu ligo o som no máximo e acompanho a música no que dizem "cantar". Em dias mais felizes, danço.
Isso me traz a alegria momentânia de viver, que é o que todos buscam durante a vida toda.
Sobre escrever? Eu ainda não descobri o que me leva a fazer isso, além da angustiante vontade que de súbito tenho.
Tenho a impressão de que é a vontade do criar misturada com a vontade do se libertar e, principalmente, do se expressar.
Taí uma coisa que me tira o peso de forma incrível - escrever.
Sobre o tal livro que revela todo meu eu, esse ficará fechado até o amanhecer, que é quando a vida não parece assim tão vida, por acordarmos de sonhos tão incertos que até eu não sei. Só a partir desse momento, desvendarei quase por completo meus segredos, confundindo ainda mais a mim.

Eu?

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Sombra do sol

- Não. É que junto com o frio, foi projetado em meu corpo sentimento de saudade - de algo virgem do toque, de algo virgem do próprio viver. Saudade essa do próprio bem de um pensamento, do calor de um abraço não dado. Desejo ou necessidade vaga de um futuro caloroso e puramente imaginado. Desejo do novo sabor de churros. Imagino toda textura e gosto desse doce sem nunca tê-lo comido - e sem que ele mesmo exista. Quero um futuro que coincida com meus pensamentos de prazer, que consiga transmitir todo um pôr-do-sol em cor alaranjada e confortante, que consiga transmitir a temperatura de abraço materno, assim como o som de pássaros voltando aos seus ninhos, cantando alegres e voando seguros - penso em tudo isso, sem ter vivido, estando apenas à espera de vivê-lo. É simples, é como se nesse frio eu sentisse uma vontade imensa de abraçar e beijar alguém que na realidade só existe em meu pensamento e saber que esse desejo jamais será realizado. Eu quero o real.
- Agora compreendo.

(provavelmente de julho de 2008)

segunda-feira, 10 de novembro de 2008



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Seria esse o melhor caminho a se seguir?

sábado, 4 de outubro de 2008

Beleza inimaginável!


 

Acabei de chegar dA apresentação artística e ainda estou em transe!

Para ter uma idéia, clique aqui ou aqui.

Isso é só a abertura e mesmo assim,não é a mesma coisa que assistir num teatro.

Mais informações: 

"ARTISTAS PARA O
 ALTO! 
E AVANTE"



Pela arte.

Pois é, os raios de sol ultrapassam todo tipo de fumaça.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Frio dentro de si

Ele vinha de muito longe. Sua terra era fria e úmida, seus cabelos eram loiros e cacheados, tinha sarnas no rosto e olhar de pôr-de-sol. Não tomava sorvete pois quando era criança sua mãe dizia que sorvete gelava. Ele tinha medo de se sentir frio por dentro. Andava firme e concentrado no chão seco e quente do sertao. Suado e vermelho nem assim parava, todos que passavam se perguntavam: "O que ele faz aqui?"

Ele queria encontrar Ana, que era dali. Amor da sua vida, metade da laranja; para ele, viveriam felizes independente do lugar físico. Passo a passo ia sentindo mais vontade de encontrá-la, enfim.
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Não estava tão concentrado, agora. Estava tudo mais quente, abafado, seco. Não entendia o que havia acontecido, mas continuou andando. Não tinha onde parar, até que avistou uma pedra. Pequena, mas o suficiente para sentar e descansar um pouco. Olhou à sua volta, o calor tomava conta. Sentia-se atordoado, não estava acostumado.
Levantou-se e andou o tempo suficiente para se perguntar se era aquilo mesmo que ele queria. Viu num arbusto uma caixa de sapatos com seu nome na tampa. Surpreso, abriu. Lá tinha uma carta e uma garrafa d'água. Sem cogitar, pegou a carta e leu. Era de Ana, onde declarava que não estava preparada para ir com ele à nova vida e que fora às Ilhas com sua família. No fim se desculpava e dizia que aquela água era para ele, pois estava muito quente e seco, e seria bom bebê-la.
Beijar-lhe-ia, se a caixa de sapatos não existisse e lá estivesse ela esperando-o. Não foi o caso. Resolveu beber logo da água que ela - que não era mais sua metade da laranja - preparara. Rápido, nem analisou aquela água. Bebeu empolgado e sentiu todo quente dentro de si.
"Ana, sua tola!", pensou antes de cair e perceber que aquilo não era apenas uma água extremamente quente.
Caído, lembrou das palavras de sua mãe, e pela primeira vez sentiu vontade de tomar sorvete.
Morreu.


(27 de março de 2008)

domingo, 6 de julho de 2008

Estado sólido

Pedra gélida, cinza e áspera em meio a grama verde e quente. Coração de gelo? Que nada. Sou o próprio gelo ambulante, sem expressão, cor ou textura. Queima ao toque, arde, gruda e o pior de tudo – é evitado.

Quero me derreter em lágrimas e poder expressar meus sentimentos sem queimar, sem ser evitada e melhor ainda – quero me amolecer com as coisas belas da vida.

domingo, 20 de abril de 2008

"-Normal."

Como beira de mar, não se sabe se já pode mergulhar ou não. Isso é ruim, sim. Sou uma pessoa e não tenho nem a beleza indiscutível da instabilidade do mar. -Normal. E me perco na hipocrisia de não transparecerer essa instabilidade colocando um muro em frente do mar - mas lembre-se, esse mar não é belo.

Escrevendo consigo derrubar parte desse muro, as pessoas vêem quão calmo o mar estava naquele dia. Às vezes não entendem se as ondas estão pequenas e a correnteza não. -Normal.

O mar não se discute, simplesmente é.

Aborto simbólico

Perdi.

Sim, perdi.
Disputei, lutei, briguei e perdi.
Fora em vão? Não sei. Foram horas e sonhos perdidos? Também não sei.

Estava em pleno sonho de sementes e fui bruscamente puxada pelos braços ao chão de madeira. Sementes? Sim, sementes. Um sonho de coisas que estão por vir, como sementes. Madeira? Sim, madeira. Um chão de sementes antigas já crescidas e postas em prática. Ou melhor.

Estava em pleno útero de mundo fantástico e fui pega pelo aborto.

O próprio ato de sonhar é vida, assim como o de não sonhar é morte.

Algo como ser feliz

Se sentir como um pássaro voando, como uma folha úmida ao vento, como o amarelo da gérbera após um dia de sol; olhar em volta, pular de alegria e pensar que o sonho enfim foi realizado. Se identificar - já era hora.

A chuva caiu após um dia de sol, agora o ar é mais fresco e as flores desabrocham.

Acordei de uma noite fresca, calma e com sonhos para um dia ensolarado de primavera.

sábado, 1 de março de 2008

Hoje eu não quero fazer um título. Pra falar a verdade, eu queria dormir agora. Só estou aqui porque......... Sabe que é uma boa pergunta?
Acho que isso já faz parte de mim, escrever se tornou algo tão normal que não preciso especificar um porquê. É como respirar sem prestar atenção na respiração, no automático.
Engraçado, agora que falei em respirar estou prestando atenção na minha respiração... Isso é desagradável. A mesma coisa se eu disser que pisco meus olhos cinco vezes por minuto, no mínimo (isso foi um chute, um baita chute).
Não adianta disfarçar, eu sei que lendo isso você vai sentir esse mesmo incômodo que estou sentindo de respirar sem ser no automático e piscar várias vezes seguidas, só por pensar em piscar.
(...)
Uau, que máximo!!
Pensar que sinto a mesma coisa que meu leitor deve sentir ao ler isso é tão legal! Posso transmitir muitos outros sentimentos em outros textos, mas nesse eu sei exatamente o que a pessoa vai sentir.
Incrível, sensacional. Tenho poder, agora descubro isso.